quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Não me sais da cabeça

Adormeço a custo, acordo do nada, viro-me, reviro-me, primeiro o corpo depois a cabeça, os pés empurram-se um ao outro no fundo da escuridão que não suporto, por isso levanto-me, os pés tocam o chão frio e encolhem-se, vou à janela e puxo os estores devagar, primeiro uma fresta, depois duas, três, sete, doze até a luz do candeeiro da rua iluminar o quarto, quem me mandou morar num segundo andar com a puta da lâmpada mesmo de chapa para os meus olhos, mas quando se compra uma casa nunca se vêem estes pormenores, como por exemplo o contador da água do vizinho nas escadas a paredes-meias com o meu quarto a estrelar-me a paciência, as rachas no chão da varanda ou a lareira que afinal não fuma e me enche a casa de um pó nojento que me põe logo com um ataque de asma.
Com o movimento da persiana, as cortinas estremecem, solta-se o pó daninho que me sobe pelas narinas e desato a tossir, doem-me as costas, doem-me as pernas, tenho frio e sono e, por isso, volto para a cama à espera do torpor que não vem desde que voltaste para casa dela e afinal decidiste que eras mais feliz com ela do que comigo, ela que tem dois filhos e nem sabes se são teus; o mais velho deve ser, tem o teu nariz e as tuas sobrancelhas, mas o mais novo é tão diferente, coitadinho, parece que saiu numa barraca da Feira Popular, tum, tum, acertei no alvo com as espingardas todas, sou o maior, tome lá este menino que é o prémio para quem tem tão boa pontaria, diz a senhora que não cabe atrás do balcão, que é viúva e quando o marido se cansou das farturas e pasou-as à Joaquina, agora é a Joaquina que incha da manhã para a tarde, ela diz que não come, que fica assim só de estar ali a fritar e tu trouxeste o menino para casa, isto sou eu a delirar acordada enquanto o sono não chega, a tosse não pára, no tecto do quarto os faróis dos carros reflectem-se em listas de luz e eu só me lembro da minha mãe a dizer olha que ele não presta, homem casado é uma praga, põe-no a andar antes que ele te dê cabo da vida.
Vida? Qual vida, penso eu deitada na cama, vida tinha eu quando vivias comigo, fazia-te um bife do lombo com batatas fritas e ovo a cavalo que te encostava às boxes em três tempos, esparramavas-te no sofá a esvaziar os miolos em frente ao televisor e, cada vez que o Benfica jogava, abrias uma lata de Superbock e desenterravas do roupeiro um cachecol ranhoso e surrado e foi assim que aprendi o que era um canto, um livre e um fora de jogo.
Livre e fora de jogo estou eu agora, desde que decidiste que eras mais feliz com ela do que comigo, mas tu nunca soubeste o que era ser feliz, por isso é que te foste embora, não me sais da cabeça, estúpido, imbecil, cobarde, idiota, egoísta, odeio-te e amo-te, amo-te e odeio-te, por isso um dia deste acordo e arranjo uma maneira de a cortar, mas primeiro corto o coração que é para me esquecer como dói o amor.
ay como duele el amor
lembras-te da música? A gente a dançar em Puerto Plata naquele hotel tão lindo mesmo junto ao mar, bungallows para brincar às casinhas, depois levaste-me para a praia e fizemos amor ali mesmo, ainda sinto a tua carne cá dentro, já lá vão seis meses, era o que faltava, além de não me saíres da cabeça também me ficaste no corpo.
Mas um dia destes, com ou sem cabeça, com ou sem coração, vou conseguir acordar sem pensar em ti durante três minutos e depois adormecer outra vez, sem que nada me acorde e então vou sonhar outra vez com a barraca dos tiros onde não há bonecos espalmados com um alvo no sítio do coração, mas tu, tu e ela, de carne e osso, tum, tum eu atiro e vocês morrem e a senhora que está atrás do balcão pisca o olho à Joaquina e diz-me tome lá os meninos que são o seu prémio e então eu pego nos catraios, vou direitinha às farturas empanturrar-me de sonhos e fico ali a vê-los a engordar como a Joaquina e nesse momento, entre o êxtase da gula e o absurdo da visão dos pequenos a incharem como dois balões e desapareceram pelos ares atrás da Roda Gigante, talvez nesse momento me saias da cabeça e desapareças da minha vida para sempre.


By, Margarida Rebelo Pinto.

Addicted to Love

Sabe, senhor doutor, eu acho que até nem estou doente, mas foi uma grande minha amiga que me disse para cá vir. Foi ela que me convenceu que isto que eu tenho pode ter, como ela diz, um fundo patológico. Eu acho que não, senhor doutor, mas como ninguém é dono da verdade porque a verdade nunca é só uma nem única, até pode ser que a minha amiga tenha mesmo razão e eu não ande boa da cabeça.
Para ser mais exacta, não é na cabeça que reside o mal, isto sou eu só a pensar alto, que é para isto que uma pessoa cá vem, também me explicou a minha amiga que é sua paciente e que por decoro, não lhe posso dizer quem é. 
Ando nisto desde a segunda classe que é quando uma pessoa entra na idade da razão. Até nem comecei muito cedo, já ouvi histórias de pessoas que revelaram sintomas com três ou quatro anos, mas a verdade é que embora me tenha dado o primeiro ataque na idade da razão até hoje nunca me perguntei porquê. A vida está cheia de ironias e uma delas reside nisto mesmo; se calhar estou doente há quarenta anos e nunca me apercebi disso. Mas há sempre um dia em que uma pessoa tem que enfrentar a realidade, sob o risco de ser engolida por ela e é por isso que cá vim, para ver se me ajuda a evitar essa contingência.
Primeiro foi o Paulo, que tinha cara de sonso e os olhos muito azuis. Parece-me que tinha cabelo oleoso e morava num bairro sinistro, mas desses pormenores só me lembro agora. Na altura andava era mesmo encantada com ele. Depois foi o João Pedro, que era primo de uma amiga e também tinha olhos azuis. E depois o João Carlos, meu colega do ciclo. E depois o filho do alfaiate, e depois o Miguel, um moreno de olhos grandes que morava no prédio em frente, jogava ténis e futebol e que não me ligava nenhuma. E olhe que ainda não tinha 14 anos quando o conheci. Não, não foram meus namorados; naquela época ninguém sabia como é que isso se fazia, não havia filmes nem essas coisas, dar a mão era um acto aventuroso, emocionante, que roçava a indecência, por isso o amor era sempre platónico e um sorriso cúmplice, um bilhetinho dentro do compêndio de matemática ou café tomado às escondida no café da esquina eram o suficiente para alimentar meses de paixão ardente e silenciosa. 
Eu achava que com a idade isto me passava, casei, tive dois filhos, separei-me quando o meu marido perdeu o interesse por mim e olhe, há dez anos que continuo nisto. Agora são os colegas da empresa, o meu vizinho do sexto esquerdo que a mulher deixou com três filhos, o meu advogado que também tem uns olhos grandes e joga ténis e outro dia, veja só ao estado a que cheguei, dei por mim a fixar o olhar no rapaz que é caixa no banco. 
Deve mesmo ter uma doença, sou viciada em amor. Mas é um amor platónico, impossível que quase nunca se concretiza. A minha amiga diz que já sofreu do mesmo mal e que o senhor doutor a tem ajudado e é para isso que estou aqui, porque nunca percebi se é o coração que manda na cabeça ou vice-versa e já agora gostava de e tentar resolver esta dependência que me alimenta os sonhos e me impede de viver.



By, Margarida Rebelo Pinto.

Fazer feliz


« O que eu quero mesmo é que sejas feliz. Não sei se sabes, talvez não tenhas tido tempo para perceber que para mim sempre foi e será isso o mais importante, mesmo que a vida te leve para outros caminhos e que sem sequer voltes a cruzar-te comigo.
Não tivemos tempo para nada, o tempo é um ladrão, mas tu és um ladrão ainda mais esperto, porque roubas tempo ao tempo e foi assim que entraste a saíste da minha vida como um furacão, chamei-te El Niño e tu riste-te com a tristeza das crianças quando estão cansadas, e eu agora vou assistindo a cada dia que passa ao crescimento de um fosso imenso entre nós, apesar de todo o amor que sentimos um pelo outro. Já reparaste que este verbo conjugado nesta pessoa é igualzinho no passado e no presente? Mas isso agora não interessa, porque nem tu o queres conjugar em nenhum tempo nem modo, nem eu espero que o faças.
Há alguns anos que aprendi a amar assim e sei que as pessoas que partem são aquelas que amo e que por isso tenho de as deixar ir, mesmo que isso me deixe vazia e cansada. Aprendi a deixar partir as pessoas porque sei que nascemos e morremos sozinhos, que tudo o que é realmente importante na vida descobre-se e aprende-se na solidão. E que por mais que te ame e te queira proteger com os meus braços de mãe, sei que é inútil e que só tu podes crescer e descobrir o que é mesmo importante para ti.
Mas custa-me, meu pequeno e irrequieto furacão, custa-me ver-te cada vez mais cansado e desligado do mundo, como se não tivesses força para viver a tua vida e te alienasses num código de conduta que achas que é o melhor para deixar toda a gente contente, sem teres que pensar em ti. É que é muito mais fácil esqueceres quem foste do que tu julgas. E se habituares a viver assim, os anos vão passar a correr e quando olhares para trás, verás que aquela vida não foi a tua, foi só a que tu pensaste que era mais fácil terMas não adianta falar, não adianta explicar-te o que já esqueci e que ainda não conheces, porque o que eu quero mesmo é que sejas feliz. Apesar de tudo, há um truque que te posso ensinar e como tu és como eu, também tens um coração do tamanho do mundo só que ainda está adormecido, por isso talvez isto te ajude. Só há uma maneira de uma pessoa ser mesmo feliz, sabes qual é?
Não tem a ver nem com o dinheiro, nem com o sucesso, nem com a fama, nem com a realização dos nossos sonhos.Aprende-se com o tempo e descobre-se com a vida. Pratica-se todos os dias como quem reza e às vezes custa mas vale a pena. É o truque mais difícil do mundo para quem nunca o recebeu e mais fácil para quem já o teve. O truque é fazer feliz a quem se ama, como dizia o João Gilberto. O mesmo que dizia que o amor é a coisa mais triste quando se desfaz. Mas isso faz parte da vida, como a morte, como a falta de sorte, como a falta de tempo, como o medo e a vontade, como tu e como eu.
E o nosso amor, aquele que o tempo, ou a vida, ou o medo, ou a falta de sorte não deixam construir, está guardado para sempre.Talvez um dia sirva para alguma coisa, para fazer feliz alguém, como eu já te fiz a ti e tu a mim, num tempo fora de todos os tempos em que eras tu que estavas comigo e não uma imagem à tua semelhança que inventaste para enganar o tempo e o mundo.
Quando quiseres descansar e olhar para dentro, verás que não é assim tão difícil. Como tudo o resto, é só querer. »
Margarida Rebelo Pinto.